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Aleitamento Materno e Empatia

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Quando a Márcia (nome fictício) deu à luz o seu filho, tomou por garantido que o iria amamentar. Mas ela não conseguia produzir leite suficiente, e mesmo dando de mamar de hora em hora, o filho não conseguia ter alimento suficiente. Ele chorava de frustração, fome e lhe parecia infeliz e ela sentia-se exausta devido à amamentação.

Esta história é-lhe familiar?

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil (Capitais e Distrito Federal) em 2008 apenas 41% mantinha amamentação exclusiva até menos de 6 meses da criança, sendo que na média a amamentação no geral dura até aos 11 meses.

Em Portugal, segundo dados da Direção Geral de Saúde (DGS), o aleitamento materno ocorre em 53,9% até menos de 6 meses da criança em comparação com 44,0% do aleitamento artificial. Estes dados reportam a 2013 e é importante salientar o 1,5% de uma amostra de 16.345 crianças em “Hospitais Amigo dos Bebés” que não receberam aleitamento materno até à data da alta.

Ser mãe pela primeira vez, aliado à responsabilidade pela vida e bem-estar de um bebé, é uma grande mudança na vida de uma mulher. As “mães de primeira viagem” sentem-se num processo de transformação caótico principalmente nas primeiras semanas com o bebé. É preciso aprender novas habilidades, lidar com o medo e incerteza e ainda sentir-se confiante e bem-sucedida no papel de mãe. O recém-nascido tem múltiplas necessidades urgentes como ter uma relação próxima com a sua prestadora de cuidados e ser devidamente alimentado. A maior parte das vezes as mulheres não estão preparadas para esta nova vida e todo o stress e ansiedade ligados a ser mãe.

Por outro lado, a sociedade mostra sempre ter altas expectativas sobre como as mães devem tomar conta e proteger os seus bebés.

Uma delas é mesmo sobre o aleitamento.

Tratado como assunto de saúde pública, e como forma de promover a prática, o aleitamento tem vindo a ser promovido através do realce dos benefícios e da relação positiva entre aleitamento, maternagem e saúde.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, a amamentação até por volta dos 6 meses de idade da criança é uma recomendação de saúde global, e as suas vantagens são por exemplo: a proteção do bebé contra doenças e morte; conferir certo grau de proteção contra o sobrepeso e a obesidade e melhorar o desenvolvimento cognitivo.

Há uma pressão social para o aleitamento materno. A mulher tem poder de decisão, mas esse está preso a noções de sucesso e insucesso. Uma mãe que dá de mamar é uma mulher bem-vista pelos outros, enquanto uma mulher que tem de optar pela alternativa está sujeita, na sua maior parte, a olhares de reprovação, opiniões alheias e falta de compreensão por parte dos outros.

É preciso ter em atenção estas mães que não amamentam. Claro que existem diversas razões para recorrer ao biberão:

Algumas mães são interditas de amamentar pelos profissionais de saúde devido à propagação de certas doenças veiculadas pelo leite materno (HIV, Citomegalovirus, hepatite C, entre outras);
Outras não conseguem produzir leite suficiente apesar de todas as tentativas e apoio dos médicos e a prioridade é nutrir devidamente o bebé;
Há ainda as que devido a dor profunda, mastites, cancro, entre outros problemas de saúde, não conseguem amamentar o seu bebé.
Não podemos esquecer claro, as mães que nunca quiseram amamentar.
Todas estas mulheres precisam de um acompanhamento com empatia e sem julgamento.

Para as mães que sempre quiseram amamentar e nenhum exame lhes revelou o contrário, a confrontação com essa impossibilidade dá-se normalmente a seguir ao parto, pelo que não há uma preparação emocional prévia para essa situação:

“Eu estava frustrada, ele estava frustrado…demorou 20 minutos para começar e antes chorou por 10 minutos, pelo que ficou exausto…mamou por 5 minutos e adormeceu. Tive de lhe beliscar a orelha para voltar a mamar porque não tinha acabado. Não aguento isso!”
Relatos de uma luta contínua, dor, sentimentos de falha, insucesso são frequentes. Estas mães sentem-se a falhar ao verem o bebé a chorar e não conseguirem suprir as suas necessidades de comida e sono, mas continuar com uma criança assim também lhes parece errado.

A decisão de deixar de amamentar é um ponto de viragem crucial para estas mães. Se feito com acompanhamento de profissionais de saúde que respeitem a mãe e a sua dor torna-se um processo menos doloroso.

Segundo um estudo escandinavo, as mães preferem ter a ajuda de um profissional nesta decisão, mas manter a liberdade de tomar elas mesmas a decisão de continuar a amamentar ou não.

Após a decisão vem um novo medo: E agora como formo um vínculo afetivo com o meu bebé?

Segundo o mesmo estudo, as mães entrevistadas relatam sentir satisfação com o apego pelos bebés e mais energia para suprir as suas necessidades e brincar.

O medo de o bebé não ter a nutrição adequada também assola estas mães que sempre acreditaram ser o aleitamento materno o melhor para as crianças. É muito importante o acompanhamento das mães que deixam de amamentar ou que nunca o chegaram a poder fazer, não só na decisão, no apoio no processo de luto desse ideal, mas também após a decisão. Em questões nutricionais, técnicas, emocionais e psicológicas. Senão vejamos:

Como dar o biberão? Por quanto tempo? Qual a fórmula adequada e qual a quantidade?
Como lidar com a perda da capacidade para amamentar e restruturar o conceito de cuidadora ideal?
O que fazer com a imagem da “boa mãe” se o leite materno põe a criança em risco de contágio?
Como enfrentar família, amigos e a sociedade em geral?
Estudos indicam que mães que amamentam os bebés têm menor stress, sintomas de ansiedade e depressão. Isso reforça a necessidade de apoiar as mães que não têm possibilidade de o fazer.

Por último gostava de dizer: Não se sinta culpada por não poder amamentar o seu bebé. O vínculo afetivo e o amor não são exclusivos do leite materno.

Habitualmente as mulheres escolhem um lugar confortável e sossegado na altura de dar o biberão.

Segure o seu bebé perto de si e faça contacto ocular. Se preferir pode segurá-lo em posição como se fosse dar de mamar e promova o contacto pele a pele.


Bispo, T.M. & Bispo, M., R. (2010). Os aspectos psicológicos da interdição à amamentação.

Psicologia.pt – O Portal dos Psicólogos.

Robledo, S. (2013). When you just can’t breastfeed. BabyCenter.

Larsen, J., S. & Kronborg, H. (2013). When breastfeeding is unsuccessful – mother’s experiences after giving up breastfeeding. Scandinavian Journal of Caring Sciences, 4 (27), 848-856. doi: 10.1111/j.1471-6712.2012.01091.x

Mezzacappa, E., S. & Katkin, E., S. (2002).Breast-feeding is associated with reduced perceived stress and negative mood in mothers. Health Psychology,2(21), 187-193.